Serviço Nacional de Saúde
São João realiza primeira transferência microvascularizada de gânglios linfáticos para tratamento fisiológico do linfedema
03 de Fevereiro de 2017
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Uma equipa de cirurgiões do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Centro Hospitalar de São João (CHSJ) realizou com sucesso a primeira transferência ganglionar microvascularizada para o tratamento do linfedema do membro superior.

De acordo com Ricardo Horta, cirurgião plástico responsável pela intervenção, “o linfedema ocorre em consequência da estase (não circulação) de líquido hiperproteico na derme e tecido celular subcutâneo traduzindo um desequilíbrio entre o aporte de fluido linfático (produção) e a capacidade de transporte do sistema linfático. Pode ser congênito ou adquirido (pós neoplasias, esvaziamento axilar ou inguinal, radioterapia, traumatismos, infeções).”

A técnica foi implementada numa utente que experimentou durante 4 anos um plano prévio de drenagem postural e uso de manga elástica, sem sucesso, mantendo grave limitação motora e igualmente múltiplos episódios de infeção/celulite anuais - total de 6 em 2016. “Realizou reconstrução fisiológica com transferência microvascularizada de retalho submentoniano (por baixo do queixo) com gânglios linfáticos homolateral, com anastomoses microcirúrgicas dos vasos do pescoço (ligações) ao ramo dorsal da artéria radial no dorso da mão e a tributária da veia cefálica, modificação técnica de outros procedimentos descritos, ainda não publicada”, afirma Ricardo Horta.

“Com esta intervenção, é expectável uma redução da circunferência do membro superior a 50% e uma diminuição dos episódios de infeção. A transferência de gânglios vascularizada atua como uma bomba impulsionadora da circulação linfática, através da criação de um gradiente de alta pressão criando uma forte pressão hidrostática entre o inflow arterial e outflow fornecido pela anastomose venosa. Este mecanismo permite a drenagem do líquido de estase linfático adjacente ao retalho através de conexões linfático-venosas intra-retalho e, posteriormente, através da veia recetora para a circulação venosa”, explica o cirurgião.

“Com a diminuição da pressão intersticial, os vasos linfáticos previamente colapsados poderão reabrir e aumentar a fluidez linfática. Os gânglios linfáticos transferidos continuam a funcionar como órgãos linfóides e para além de filtrarem a linfa, constituem um local de interação entre linfócitos e antigénios/outras células, reduzindo a incidência de infeções no pós-operatório”, conclui Ricardo Horta.