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Antibioterapia em fim de vida: uma decisão que requer ponderação caso a caso

28 de Novembro de 2017
Semana antibiotico dia 23 site 1 1024 550

O tema "O antibiótico no doente em fim de vida" encerrou as Conferências São João, dedicadas à Semana do Antibiótico. Um painel composto por profissionais com reconhecida competência procurou refletir e debater sobre questões em torno da pertinência do recurso a antibióticos no doente terminal. A moderação foi feita por António Oliveira e Silva, internista e Presidente do Conselho de Administração do CHSJ.

Cristina Nunes, internista e intensivista na Unidade Local de Saúde de Nordeste Transmontano (ULSNE), Coordenadora do Grupo Local de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistências aos Antimicrobianos revelou os resultados de um estudo pioneiro em Portugal, realizado na Unidade de Cuidados Paliativos do ULSNE que avaliou a prevalência de microrganismos multirresistentes e o uso de antibióticos nestes doentes, e que incluiu também um inquérito sobre as práticas dos médicos da unidade no que diz respeito a controlo de infeção e uso de antibióticos.

Edna Gonçalves, internista e diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do CHSJ, começou a sua intervenção distinguindo nos doentes em Cuidados Paliativos o subgrupo que se encontra em fim de vida, alvo da sua apresentação. A médica refletiu sobre as questões bioéticas da prescrição de antibióticos nestes doentes. Tendo presente que os Cuidados Paliativos estão focados na qualidade de vida, importa questionar-se sobre prescrever ou suspender antibióticos, chegando a consenso acerca da utilidade ou futilidade da sua prescrição, de acordo com o caso clínico em causa. A prescrição de antibióticos neste contexto impõe a análise da relação custo-benefício para cada doente. 

Por outro lado, é necessário ter sempre em conta a decisão do doente expressa no momento ou previamente, a família enquanto transmissora daquilo que o doente já não capaz de se manifestar, gostaria que fosse o curso do seu tratamento no final da vida, e o próprio profissional de saúde. A definição do objetivo do tratamento para prolongar a vida ou atenuar os sintomas reveste-se de particular importância. Analisar prognóstico vital e definir limites de tratamento para cada utente são passos essenciais neste processo. "Em cuidados paliativos, o médico tem de ser racional, ser cientificamente correto e aceitar os seus limites", com esta reflexão concluiu Edna Gonçalves.

António Sarmento, infeciologista, Diretor do Serviço de Doenças Infeciosas do CHSJ e professor da FMUP, referiu dados relativos ao elevado número de doentes que se encontram sob tratamento antibiótico nos momentos finais de vida, ainda que a evidência de benefício ou de prolongamento da vida seja muito escassa. Aliás, mesmo um eventual aumento de sobrevida, neste contexto, se em situação de sofrimento, pode fazer passar o tratamento de útil a fútil, considerou. Acima de tudo, acrescentou, importa dar ao doente tudo o que lhe possa aumentar o conforto e, nessa perspetiva, tratar todos os sintomas, incluindo os causados por eventuais infeções (por ex. a febre), independentemente de se tratar ou sequer identificar a causa.

O debate, muito participado, decorreu com intervenções do moderador e de vários profissionais presentes na sala. Foram discutidas questões como a decisão de escalada de terapêutica e de meios de diagnóstico tendo havido consenso no painel de que estas decisões devem ser individualizadas e sempre tendo em conta a criteriosa ponderação da qualidade de vida do doente. 

Da mesma forma, foi questionada a posição do médico perante o doente com situações de doença com prognóstico irreversível, mas evolução lenta, como alguns estados demenciais, em que a definição de “doente terminal” e a previsibilidade de morte a curto prazo pode ser mais difícil, tendo sido referido pelos elementos do painel a necessidade de ter como elemento primordial neste julgamento, a avaliação da qualidade de vida do doente em cada situação e a necessidade de, tomada a decisão de não prescrever antibiótico perante a suspeita de infeção, o doente ter que ser acompanhado de forma tanto ou mais intensiva, pois, nesta como noutras áreas da abordagem do doente paliativo, não iniciar ou suspender uma terapêutica não pode nunca significar qualquer tipo de afastamento dos profissionais de saúde, antes pelo contrário deve levar a um aumento da proximidade e da intervenção no sentido de aliviar todos os sintomas.

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