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Menina guineense realiza sonho de comer gelado após cirurgia reconstrutiva do esófago

16 de Outubro de 2018
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Uma menina guineense de apenas três anos de idade, com estenose do esófago por ingestão de soda cáustica, foi operada com sucesso no Serviço de Cirurgia Pediátrica do Centro Materno Pediátrico do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ), tendo recuperado a total capacidade de se alimentar e cumprido o sonho de comer um gelado.

A “Missão Saúde para a Humanidade” (MSH), uma organização não-governamental (ONG), baseada em Aveiro, tentou tudo para trazer a criança para Portugal para ser tratada visto não existir tratamento adequado em Bissau.

Estes casos são muito frequentes na Guiné, onde as garrafas vazias servem para guardar tudo e muitas vezes, no meio do calor tropical, as crianças levam à boca líquidos perigosos, como a soda cáustica, guardada em geral em pó mas confundida com leite em pó ou açúcar e misturada com água.

Após a ingestão da soda cáustica, a menina ficou com o esófago queimado e fechado, deixando de se conseguir alimentar. Uma sonda de gastrostomia foi colocada no Hospital de São José, em Bôr, nos arredores de Bissau mas, teria de ser transferida para Portugal, onde médicos especialistas poderiam “reconstruir” o esófago. Uma cooperação entre os Ministérios da Saúde de ambos os países tornou esta situação viável.

Em traços gerais, a técnica cirúrgica utilizada neste caso tem dois aspetos relevantes: por um lado, o esófago foi removido sem “abrir” o tórax (esofagectomia transhiatal); por outro lado,para o lugar (leito) do esófago foi deslocado o estômago até ao pescoço (transposição gástrica). 

Trata-se de uma técnica que menoriza a invasividade e complicações de um procedimento altamente diferenciado, de que o CHUSJ foi pioneiro a nível nacional. Para tanto “ tem sido decisiva a abordagem multidisciplinar que o Centro Materno Pediátrico disponibiliza”; “sendo particularmente gratificante que uma técnica operatória que se foi aprimorando ao longo dos anos no Serviço de Cirurgia Pediátrica, mas que as campanhas de prevenção tornaram de aplicação esporádica em Portugal, dela possam usufruir estas crianças”, explica Estevão Costa, diretor do Serviço de Cirurgia Pediátrica do CHUSJ e cirurgião responsável nesta intervenção cirúrgica.

A MSH providenciou toda a ajuda social e o Estado português, através da Direção-Geral da Saúde, assegurou a parte hospitalar. Os contactos com a família na Guiné são também garantidos pela MSH. São enviados relatórios para os pais e se a família tiver um telefone, também são proporcionados contactos por essa via com a criança.

O protocolo entre os Ministérios homólogos de Portugal e da Guiné-Bissau existe há vários anos e já permitiu o tratamento de numerosas crianças guineenses em estado de saúde considerado grave, no CHSJ. Para além dos cuidados de saúde, o protocolo contempla ainda transmissão de know how e intercâmbio de profissionais.