Unidade Funcional de Neurocirurgia Funcional
A Neurocirurgia funcional constitui uma área altamente especializada da Neurocirurgia que se dedica à abordagem de distúrbios neurológicos complexos através de intervenções cirúrgicas meticulosamente direcionadas ao sistema nervoso central. Diferentemente de outras subespecialidades que se concentram predominantemente na correção de anomalias anatómicas, a neurocirurgia funcional adota uma abordagem singular visando, primariamente, modular a atividade neural para mitigar sintomas e melhorar a funcionalidade do sistema nervoso, em situações nas quais a abordagem não cirúrgica se mostra limitada.
Entre as patologias abordadas pela Neurocirurgia funcional, destacam-se a doença de Parkinson e outros transtornos do movimento, epilepsia refratária, dor refratária, nevralgia do trigémeo e os espasmos hemifaciais.
As técnicas inovadoras empregadas neste campo incluem a estimulação cerebral profunda (DBS), que implica a inserção de elétrodos em regiões cerebrais específicas conectados a um dispositivo gerador de impulsos elétricos. Este procedimento visa modular a atividade neural em áreas associadas a sintomas específicos, como tremores, conferindo uma significativa melhora na qualidade de vida dos doentes. A nossa Unidade foi pioneira em Portugal, introduzindo a estimulação cerebral profunda no nosso país em outubro de 2002.
Outras abordagens da neurocirurgia funcional englobam a neuromodulação, que pode incluir a estimulação de nervos periféricos, medula espinhal ou outras estruturas neurais, proporcionando uma ampla gama de opções terapêuticas. Essas técnicas, embora intrinsecamente cirúrgicas, são caracterizadas por uma abordagem minimamente invasiva sempre que possível, buscando reduzir os riscos associados à intervenção.
Atividade assistencial:
A natureza multidisciplinar da Unidade de Neurocirurgia funcional é evidenciada pela colaboração estreita com neurologistas, neurorradiologistas, psiquiatras, anestesistas dedicados à medicina da dor, neuropsicólogos e outros profissionais da saúde, com o objetivo de proporcionar uma avaliação holística e personalizada para cada paciente. Essa colaboração visa abordar não apenas os aspetos clínicos, mas também as nuances psicossociais associadas aos distúrbios neurológicos, promovendo assim uma atenção integral e individualizada.
A nossa Unidade faz parte do Centro Nacional de Referência para o tratamento de Epilepsia Refratária e da Unidade de Doenças do Movimento da ULS São João, com reuniões semanais para a discussão multidisciplinar dos casos propostos para tratamento cirúrgico.
A Unidade de Neurocirurgia funcional conta com os seguintes serviços:
- Cirurgia de estimulação cerebral profunda para tratamento da doença de Parkinson, distonias, perturbação obsessivo-compulsiva, tremor essencial, doença de la Tourette e epilepsia refratária. A cirurgia de estimulação cerebral profunda para o tratamento de Parkinson é realizada com recurso a microrregisto e sob anestesia geral.
- Cirurgia para o tratamento de epilepsia refratária: cirurgia ressetiva, cirurgia ressetiva com o doente acordado, estimulação cerebral profunda, cirurgia de estimulação do nervo vago, ablação guiada por laser, monitorização invasiva da epilepsia (estéreo-EEG).
- Cirurgia para o tratamento da dor: microdescompressão vascular por nevralgia do trigémeo, tratamentos percutâneos para o tratamento da nevralgia do trigémeo, estimulação medular para o tratamento de dor neuropática, estimulação periférica para o tratamento da dor, estimulação cerebral profunda para o tratamento da dor refratária.
- Microdescompressão vascular para tratamento de espasmo hemifacial ou acufenos.
Durante o ano 2023 foram efetuadas 100 cirurgias, incluindo estimulação cerebral profunda (DBS), substituições de baterias de sistemas de neuromodulação, microdescompressões vasculares, estimuladores occipitais e medulares, cirurgias ressetivas para tratamento de epilepsia refratária (lobectomias com amigdalohipocampectomia, hemisferotomias funcionais, remoção de lesões epileptogénicas e quadrantotomia), estéreo-EEG e estimuladores do nervo vago.
A morbilidade neurológica foi de 1%.
Todos os doentes operados com DBS para Doença de Parkinson em 2023 tiveram uma melhoria dos seus sintomas motores e uma grande maioria conseguiu reduzir de modo significativo a medicação, sendo possível em alguns retirá-la na sua totalidade.
Atividade científica e de investigação:
A Unidade tem em curso vários projetos de investigação na área da Neurocirurgia funcional e um dos elementos é estudante de Doutoramento na área da estimulação cerebral profunda.
A unidade conta com múltiplos artigos publicados em revistas indexadas, algumas delas produto da colaboração com outras universidades nacionais e estrangeiras.
Os elementos da Unidade participam ativamente em cursos e congressos nacionais e internacionais, apresentando trabalhos ou como convidados para moderar palestras.
Estudos multicêntricos em que a Unidade se encontra envolvida:
- Boston Scientific Registry of Deep Brain Stimulation Systems for treatment of Essential Tremor (ET) - “The Essential Tremor Registry” - IP: Dr. João Massano
- Prospective Study of Deep Brain Stimulation with the VERCISE™ System for treatment of Dystonia: Vercise DBS Dystonia Prospective Study - IP: Dra. Carolina Soares
- Patient Retrospective Outcomes (PRO) with the use of systems for treatment of chronic pain - IP: Dra. Clara Chamadoira.

